De chefe a líder

Você, jovem leitor, pode não saber, mas houve uma época em que as lideranças eram obedecidas mais pela hierarquia do que pelo respeito. Época em que as redações dos jornais tinham fumódromos dentro de prédios e as chefias eram mais duras do que se admite hoje. Vi cenas atualmente impensáveis de editores e chefes de reportagem gritando com repórteres. Comportamentos que hoje poderiam resultar em demissão sumária e processos trabalhistas.

O mundo mudou e esse perfil de chefe ficou no passado, abrindo lugar para lideranças que trabalham em equipe, pensam junto e permitem o crescimento profissional do time. Certamente os resultados de jobs mais bem-sucedidos se dão pela união de várias cabeças pensantes e não apenas de uma.

A mudança radical do modelo de governança vertical para o horizontal exige hoje um comportamento da liderança que vai além das portas da empresa e que reflete diretamente no negócio. Consumidores e população, em geral, esperam de CEOs posicionamentos sobre questões que impactam significativamente na vida da sociedade, mesmo que não reflitam diretamente nos negócios da empresa. É esperado também que os CEOs tenham voz ativa e apoiem – não apenas no discurso, mas na prática – questões ambientais e políticas.  Esses são alguns resultados da pesquisa da FleishmanHillard global no estudo proprietário Authenticity Gap do ano passado. Calar não é mais admissível a alguém que comanda uma empresa e seus gestores. O papel social é intrínseco à posição de um gestor.

A reputação e imagem da marca está cada vez mais atrelada ao comportamento do CEO e das lideranças. Bons resultados financeiros são insuficientes para construir e manter reputações e não se sobrepõem às boas práticas. O contrário pode ser verdadeiro. Práticas inadequadas podem acabar com reputações em curto espaço de tempo e, por consequência, impactar diretamente nos resultados dos negócios.

Se houve uma época em que as redes sociais eram apenas ambientes de amizade e entretenimento, hoje são espaços de trabalho. Faz tempo que o LinkedIn deixou de ser uma rede apenas de seleção de profissionais, ferramenta quase que exclusiva de Recursos Humanos. Os perfis do LinkedIn passaram a ser instrumentos de negócios e um dos ambientes para as lideranças expressarem seus pensamentos mais diversos, além do seu negócio em si. Os profissionais que ainda não perceberam o poder da rede perdem a cada dia a oportunidade de ocupar esse território em expansão.

Quando um executivo me diz que não se sente à vontade de postar nas redes sociais, digo que é o mesmo que se recusar a participar de um evento de trabalho. Está deixando de estar onde o seu concorrente já marca presença.

Falar em thought leadership é falar em conteúdo legítimo, autêntico e de relevância. Ignorar qualquer desses pontos significa um gap de governança e, por consequência, um gap na comunicação. Os líderes que entenderam esse novo caminho corporativo de governança estão colhendo os frutos. E arrebanhando seguidores, como todo bom líder.

Por Cláudia Fernandes, diretora-executiva da FleishmanHillard Brasil