Brasil em Davos: do soft power climático ao hard power de recursos

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Brasil em Davos: do soft power climático ao hard power de recursos

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Janeiro de 2026. Nos corredores gelados do Fórum Econômico Mundial, o ar saturado ecoa uma palavra que resume a ansiedade do C-Level global: a imprevisibilidade.

De acordo com o novo estudo Licença para Liderar (Licence to Lead), apresentado pela FleishmanHillard durante o evento, 84% dos consumidores globais acreditam que o ambiente de negócios está mais disruptivo do que há apenas três anos. Neste tabuleiro de incertezas, o Brasil não é mais apenas um convidado; emergiu como um “país-plataforma”, peça-chave para a sobrevivência das cadeias de suprimentos ocidentais.

No entanto, o brilho do protagonismo brasileiro esconde um desafio hercúleo. Davos 2026 revelou um paradoxo: o mundo quer o Brasil, mas está menos tolerante com o “estilo brasileiro” de improviso regulatório e ruído fiscal. A “licença para liderar” do país está sendo testada em tempo real.

Ao mesmo tempo, Davos foi um teste de credibilidade para a agenda que o país vem construindo desde COP30 e G20: acelerar a transição sem perder tração econômica, reposicionar-se como parceiro previsível entre EUA, UE e China e usar clima, energia e alimentos como base de um novo protagonismo.

O “hard power” dos recursos e o sonho do friendshoring

A programação de Davos 2026 destacou cinco grandes desafios: cooperar em um mundo contestado ou hostil, destravar novas fontes de crescimento, investir em pessoas, implantar inovação de forma responsável e construir prosperidade dentro dos limites do planeta.

Na cobertura da imprensa internacional, o tom sobre o Brasil mudou. Se em anos anteriores o foco era apenas o soft power da preservação ambiental, em 2026 o foco é o hard power geoeconômico.

O Brasil apresentou em Davos quatro ativos que o tornam o destino inevitável do friendshoring (investimento em países aliados):

  • Soberania Energética: Uma matriz elétrica mais de 80% renovável que atrai desde indústrias de manufatura verde até gigantes de Data Centers famintos por energia limpa.
  • Segurança Mineral: O potencial em terras raras e minerais críticos para a transição energética colocou o país na rota de colisão positiva com as necessidades de segurança nacional de EUA e União Europeia.
  • Segurança Alimentar: Em um mundo de choques climáticos, o agro brasileiro pode ser o amortecedor global contra a inflação de alimentos — desde que acompanhado de rastreabilidade inquestionável.
  • Acesso a mercados e integração: o desfecho político do acordo UE–Mercosul, lido em Davos como parte de uma estratégia europeia para reduzir dependência de China e EUA, reforçou o Brasil como porta de entrada para o maior mercado da América do Sul e interlocutor-chave numa das maiores áreas de livre comércio do mundo.

A lacuna da credibilidade: o custo da inconsistência

Mas Davos também trouxe o “banho de realidade”. O estudo Licence to Lead aponta que 58% dos consumidores abandonam uma marca (ou país, na visão de investidores) após a perda de confiança. E aqui reside o risco: os dados revelam um descompasso gritante entre a autopercepção das lideranças e a visão do público. Enquanto governantes e CEOs celebram avanços, o mercado escrutina a fragilidade fiscal e a lentidão na execução de acordos, como o UE-Mercosul.

“A reputação não é mais um bônus; é a pré-condição para pivotar a estratégia”, destaca a análise da FleishmanHillard. Para 92% dos stakeholders, uma imagem sólida é o que dá ao líder a margem de manobra para tomar decisões difíceis. Sem essa licença, qualquer movimento disruptivo é lido como crise.

Desafios: o “stress test” da tese Brasil

Painel “Breaking Latin America’s Growth Ceilling”, durante o WEF 2026 | Foto: Fórum Econômico Mundial

A delegação brasileira se esforçou para vender a mensagem de estabilidade macroeconômica. Contudo, a imprensa econômica não ignorou as fragilidades do “risco Brasil”. Dois pontos foram recorrentes nas análises de risco em janeiro de 2026:

  • Previsibilidade Fiscal: Analistas de bancos globais apontaram que a dívida elevada e a incerteza sobre o ajuste de médio prazo ainda são o principal freio para investimentos de longo prazo.
  • Coerência Climática: O mundo não aceita mais o discurso “verde” se não houver combate implacável ao desmatamento e governança na mineração. A licença política do Brasil para liderar o clima depende da manutenção da trajetória de proteção ambiental observada em 2025.
  • Execução de acordos e ambiente regulatório: no caso do UE–Mercosul, a narrativa foi de “começo da parte difícil”: transformar o tratado em ganhos concretos em meio a salvaguardas, mecanismos de reequilíbrio e disputas sobre regras ambientais – um teste direto à capacidade do Brasil de alinhar política comercial, agenda climática e competitividade industrial.

A atuação da delegação brasileira

Embora o presidente Lula não tenha ido a Davos, o Brasil foi representado pela ministra Esther Dweck (Gestão e Inovação). Coberturas e entrevistas no âmbito do Fórum destacaram um esforço coordenado da delegação brasileira para vender três mensagens centrais: estabilidade macroeconômica em reconstrução, compromisso com transição justa e abertura para parcerias em inovação e infraestrutura. Em painéis sobre crescimento em mercados emergentes, autoridades brasileiras enfatizaram a combinação de reformas internas, reorganização do orçamento e retomada de políticas de investimento como base de um “novo ciclo de crescimento mais próximo da média global”.

Nos bastidores, encontros bilaterais com fundos, bancos multilaterais e empresas de energia, mineração e tecnologia reforçaram o papel do país como hub regional – tanto na interconexão energética quanto na integração de cadeias industriais sul-americanas, algo que dialoga com a visão de “hedge geoeconômico” descrita em análises recentes sobre o acordo UE–Mercosul e a reaproximação Brasil–EUA em minerais.

A mensagem de “clima como oportunidade econômica” ecoou, conectando COP30 em Belém, a presidência brasileira no G20 e a agenda de investimentos em infraestrutura verde e digital discutida com bancos de desenvolvimento e o setor privado. Para a mídia, essa costura reforça a imagem de um Brasil que tenta sair da lógica reativa e usar diplomacia climática, recursos naturais e integração regional como ativos estruturais de política econômica.

O veredito de Davos

Para os tomadores de decisão, a mensagem de 2026 é clara: o Brasil saiu de Davos maior no imaginário estratégico, mas sob uma vigilância sem precedentes. Agora, o contexto exige que o país e suas empresas transformem promessas em entregas mensuráveis.

A janela de oportunidade entre 2026 e 2027 é possivelmente a maior da década, impulsionada pelos leilões de infraestrutura e pela reconfiguração energética. Quem chegar primeiro, ancorado em uma narrativa robusta de conformidade ambiental e responsabilidade fiscal, garantirá ativos que combinam retorno financeiro com impacto social.

Em um mundo imprevisível, a direção é importante, mas a permissão dos stakeholders para seguir nessa direção é o que garantirá a sobrevivência.

O que Davos 2026 sinaliza para empresas e investidores no Brasil

As oportunidades apontadas – energia limpa barata, minerais críticos, agronegócio de baixo carbono, acesso ampliado a mercados e integração regional – vêm acompanhadas de condicionantes claros:

  • Reputação e licença para operar passam a ser pré-condição para capturar os ganhos de UE–Mercosul, da corrida por minerais raros e da transição energética.
  • Governança regulatória, previsibilidade fiscal e capacidade de execução serão escrutinadas no mesmo nível que fundamentos naturais e climáticos na avaliação de risco–retorno de projetos no país.
  • Empresas que conseguirem traduzir Davos em planos concretos – combinando diplomacia corporativa, compliance ambiental profundo, narrativa clara de criação de valor e alinhamento com agendas globais de clima, energia e segurança de cadeias – tendem a sair à frente na disputa por capital e parcerias estratégicas.

Na prática, Davos expôs um paradoxo: o mundo parece mais disposto a apostar no Brasil como player estratégico, mas menos tolerante com ruídos fiscais, improviso regulatório e sinais ambíguos em clima e direitos socioambientais.



Future Minerals Forum 2026: Brasil e Arábia Saudita juntos

Antes de Davos debater o friendshoring em teoria, Riade já o colocava em prática. O Future Minerals Forum (FMF), realizado de 13 a 15 de janeiro, consolidou-se como o principal palco global para a geopolítica dos minerais críticos — e o Brasil emergiu como protagonista natural dessa conversa.

A quinta edição do evento reuniu mais de 100 países, todos os membros do G20 e 59 organizações multilaterais, incluindo o Banco Mundial, que apresentou sua nova estratégia de financiamento para sete corredores de infraestrutura mineral — dois deles na América Latina. O recado foi claro: a transição energética não acontece sem os minerais do Sul Global, e quem quiser acessá-los precisará investir em infraestrutura e parcerias de longo prazo.

A estratégia saudita: minerais para transição, defesa e IA

O FMF deixou evidente a revisão de prioridades da Arábia Saudita dentro da Visão 2030. O Reino não busca minerais pelo retorno financeiro isolado — busca insumos estratégicos para três pilares: transição energética, defesa e inteligência artificial. Terras raras, lítio, grafita, cobre: tudo o que alimenta baterias, turbinas eólicas, semicondutores e sistemas de defesa está no radar saudita.

A lógica é simples e não negociável: investimentos em projetos estrangeiros virão, mas com contrapartidas. Extração pode acontecer no país de origem; processamento e metalização, preferencialmente em solo saudita. O modelo canadense ilustra bem: a Northern Graphite fechou parceria com o grupo Obeikan para processar grafita na Arábia Saudita, não no Canadá.

Brasil: da retórica à mesa de negociação

O Brasil enviou uma delegação compacta — cerca de 60 representantes entre governo, mineradoras, investidores e prestadores de serviços. O Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, assinou um Memorando de Entendimento com seu contraparte saudita, Bandar Alkhorayef, prevendo cooperação técnica em geologia, exploração e mineração, além de uma “Aliança Brasil-Arábia Saudita para Investimentos em Mineração”.

O FMF contou com uma mesa dedicada à América Latina, co-liderada pelo Banco Mundial, na qual Roberta Dalla, COO da GIN Capital, foi uma das representantes do Brasil. A GIN Capital também organizou o Country Case do Brasil dentro do FMF, mediado por Carlo Pereira, CEO da GIN Capital e dos LIDEs DC e NYC, reunindo no painel Ricardo Soares (Prisma Capital), Marcelo Carvalho (Meteoric Resources), Eduardo Gamma (Ouribank) e Klaus Petersen (Viridis). O painel apresentou os ativos que tornam o Brasil um parceiro natural para a Arábia Saudita: estabilidade institucional, diversificação geológica, credenciais ESG intrínsecas e escala para projetos de classe mundial.

Para além do governo e das mineradoras, a presença de empresas de serviços geológicos como a GeoSol, que está estabelecendo operações no Reino, sinaliza que o setor privado brasileiro entendeu a regra do jogo: presença local é condição para capturar oportunidades.

A triangulação estratégica: Brasil, Arábia Saudita e EUA

O contexto geopolítico adiciona uma camada de complexidade — e oportunidade. A reconfiguração das cadeias de suprimentos globais, acelerada pelas tensões entre EUA e China, abre espaço para triangulações estratégicas.

O LIDE NYC e LIDE DC aproveitaram o FMF para avançar nessa agenda. Em Riade, foram realizadas reuniões com órgãos do governo saudita, fundos soberanos e family offices para desenhar estruturas de parceria que conectem recursos brasileiros, capital e demanda dos EUA e do Golfo por minerais críticos. O Brasil, com seu posicionamento de friendshoring genuíno — dialogando com todos os blocos sem alinhamento exclusivo — pode funcionar como ponte natural nessa equação.

É uma geometria complexa, mas que reflete a nova realidade: em um mundo de blocos, quem consegue transitar entre eles captura valor. As conversas iniciadas em Riade apontam para modelos de coinvestimento que atendam simultaneamente às prioridades estratégicas sauditas, às necessidades de segurança mineral dos EUA e ao potencial geológico brasileiro.

O veredito do FMF

O Brasil saiu de Riade com portas abertas — mas abertas para quem entender a gramática saudita. Os árabes são relacionais, não transacionais. Não bastam bons projetos; é preciso presença constante, paciência e disposição para adaptar estruturas às prioridades estratégicas do Reino.

Nos próximos meses, os desdobramentos das conversas iniciadas no FMF começarão a se materializar. Para empresas e investidores brasileiros, a janela é clara: o país tem o capital geológico que a Arábia Saudita busca. A questão agora é converter potencial em parcerias concretas — e isso exige mais do que um voo a Riade por ano.


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