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Minerais Raros: a corrida Brasil-EUA pela segurança estratégica
A disputa global por minerais raros transformou-se no epicentro de uma nova ordem geopolítica. Brasil e Estados Unidos desenham uma aliança estratégica que pode redefinir cadeias produtivas globais e décadas de hegemonia chinesa.
A demanda global tem motivo: a indústria depende de elementos de terras raras para ímãs em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos e equipamentos de defesa. A Agência Internacional de Energia projeta que a demanda para tecnologias de baixo carbono deve, no mínimo, triplicar até 2040 — podendo triplicar em cenários de emissões líquidas zero.
Com investimentos bilionários em curso, 2025 consolida as terras raras como ativo de soberania nacional. As dinâmicas atuais expõem uma corrida estrutural por segurança em cadeias de suprimento e o lugar que o Brasil ocupará nesse tabuleiro.
Onde o Brasil está nesse mapa
O Brasil detém aproximadamente 23% das reservas mundiaisconhecidas de terras raras (cerca de 21 milhões de toneladas de óxidos equivalentes), ficando atrás apenas da China.
Ao mesmo tempo, a China responde por cerca de 60% da produção global de terras raras e mais de 90% da capacidade de refino e fabricação de ímãs magnéticos, o que lhe confere poder de mercado e de pressão geopolítica.
A convergência estratégica
A posição privilegiada do Brasil catapultou o potencial das negociações comerciais com Washington. O acesso a minerais críticos tornou-se moeda de troca para remoção de tarifas impostas pelo governo Trump — um desenvolvimento que reposiciona Brasília no xadrez geopolítico americano.
Em outubro de 2025, Gabriel Escobar, encarregado de negócios dos EUA no Brasil, realizou reuniões estratégicas com executivos do setor mineral em Salvador, sinalizando que as terras raras serão protagonistas nas discussões bilaterais. O ministro Alexandre Silveira confirmou que “não há nada que não possa estar na mesa” nas negociações.
Morgan Stanley e Goldman Sachs destacaram o papel das terras raras brasileiras na reaproximação Trump-Lula, uma evidência de que Wall Street enxerga valor geopolítico traduzível em retornos financeiros.
Investimentos bilionários redesenham o mapa industrial
O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) projeta US$ 2,17 bilhões em projetos de terras rarasentre 2025 e 2029, crescimento de 49% em relação ao período anterior.
A Serra Verde tornou-se a primeira produtora brasileira em larga escala em 2024, extraindo terras raras de argilas iônicas em Goiás. A empresa deve produzir ao menos 5 mil t/ano de óxidos na Fase I, com possibilidade de dobrar a capacidade até o fim da década.
O diferencial competitivo é cirúrgico: a planta é a única fora da Ásia a fabricar, em escala, todos os quatro elementos magnéticos essenciais (neodímio, praseodímio, disprósio, térbio) usados em veículos elétricos e turbinas eólicas. Em 2025, recebeu financiamento de mais de US$ 460 milhões da DFC dos EUA.
Projetos em Minas Gerais (Viridis, Meteoric) e o Carina Project, da Aclara Resources, em Aparecida de Goiânia, também caminham para produção de argilas iônicas até 2030, com potencial relevante em elementos pesados como térbio e disprósio.
Mais relevante que o volume é a verticalização da cadeia: o país avança também nas etapas de separação, refino e manufatura, como vem acontecendo com o projeto MagBras e o CIT SENAI ITR em Minas Gerais.
Thiago Toscano, CEO da Itaminas, enxerga no momento atual uma janela de oportunidade para destaque em conversas com fundos internacionais. O executivo vem atuando com uma intensa agenda de compromissos, incluindo a Cúpula das Américas e o CEO Summit. “A gente vem mostrando que há elementos na Itaminas que são importantes para destravar essa agenda”, afirma.
“A indústria da siderurgia mundial já reconhece o quadrilátero ferrífero como chave na transição energética”
A equação energética como diferencial
Sergio Cabral, vice-presidente de Comercialização da Cemig, é categórico ao dizer que “o Brasil está preparado para a transição global”. Para o executivo, a disponibilidade de energia elétrica limpa será o fator decisivo para viabilizar operações tecnológicas de alta complexidade: com 85% da matriz nacional renovável e 94% em Minas Gerais (100% na Cemig, segundo Cabral), o país reúne condições únicas para atrair capital intensivo.
O Oriente Médio emergiu como ator relevante em siderurgia justamente pela energia subsidiada. “A indústria está migrando para a região em função de energia barata”, observa Toscano. O Brasil pode oferecer o mesmo diferencial com credenciais superiores.
“Gerar confiança global, adotar smart grids e digitalização, investir em subestações e automação, além de ter uma matriz renovável, é o que fará de Minas um território de operações industriais e mineração globalmente competitivas — inclusive para minerais raros.”
Ferro de alto teor: o outro minério estratégico
Além das terras raras, o minério de ferro de alto teor cumpre papel-chave na descarbonização industrial. Organizações buscam o produto para ganhar eficiência energética e reduzir emissões numa indústria altamente emissora de gases de efeito estufa.
Siderúrgicas globais se adequam também a novas legislações como a CBAM (Mecanismo de Ajuste de Carbono nas Fronteiras) da União Europeia e o Marco Legal do Carbono no Brasil, que passaram a taxar produtos de ferro e aço ou exigir rastreabilidade nas emissões incorporadas durante a produção.
“No Oriente Médio, o minério de ferro de alto teor é considerado um mineral crítico, já que a região não possui estoques significativos”, afirma Toscano. De olho nessa demanda, a Itaminas instalou subsidiária em Abu Dhabi e avança em negociações de acordos de investimento com apoio da Gin Capital.
“O debate sobre quem paga pela tecnologia mais limpa não se aplica totalmente ao setor mineral — a dinâmica de commodities e de contratos globais diferencia o segmento brasileiro.”
Thiago Toscano, CEO da Itaminas
O contraponto norte-americano
Os Estados Unidos intensificaram esforços em 2025 para reconstruir a cadeia doméstica de minerais raros. Washington tornou-se acionista da MP Materials e viabilizou US$ 1,4 bilhão para criação de cadeia produtiva de ímãs com a Vulcan Elements e ReElement Technologies — sinalização clara da emergência do ciclo produtivo completo em solo americano.
A estratégia americana, porém, difere da realidade do Oriente Médio: enquanto neodímio e praseodímio são estratégicos para os EUA, o ferro brasileiro não é considerado crítico devido à abundância interna. “O setor americano valoriza outros minerais na agenda de descarbonização e segurança”, observa Toscano.
Essa assimetria cria oportunidade: o Brasil pode posicionar-se como fornecedor complementar em minerais que os EUA não produzem, enquanto desenvolve capacidade doméstica em refino e manufatura.
Reciclagem: a fronteira inexplorada
Menos de 1% dos elementos de terras raras são atualmente reciclados, uma ineficiência insustentável diante da demanda projetada. No exterior, grandes organizações globais (Apple, Vulcan, ReElement) firmam parcerias para produção e reaproveitamento de óxidos magnéticos. Países como o Canadá e Índia começam a explorar esse mercado e a União Europeia já estabeleceu meta de 25% de conteúdo reciclado de terras raras até 2030.
O Brasil pode posicionar-se como polo de experimentação em cadeias de reciclagem inovadoras, capturando valor em segmento de margens ainda mais atrativas que mineração primária.
Governança ambiental: COP30 e o jogo fragmentado
Na COP30 em Belém, Brasil e Colômbia defenderam diretrizes de rastreabilidade, direitos humanos e padrões ambientais para a cadeia global de minerais críticos. O programa de “Transição Justa”, contudo, terminou com referência tímida ao tema — propostas mais ambiciosas foram diluídas ou retiradas na fase final de negociação.
A ausência de regras multilaterais claras mantém o jogo fragmentado, com risco maior de disputas bilaterais e barreiras regulatórias assimétricas. Para empresas brasileiras, isso significa que excelência operacional em sustentabilidade não é diferencial, mas requisito mínimo para competir.
Desafios estruturais e regulatórios
A aprovação da Lei Geral do Licenciamento Ambiental (Lei 15.190/2025)cria novo arcabouço para licenças ambientais no país, com uniformização de procedimentos, simplificação do rito para empreendimentos de menor impacto e criação de licenças especiais para projetos estratégicos.
O texto final, porém, veio com 63 vetos presidenciais para evitar flexibilizações consideradas excessivas — 56 vetos foram derrubados hoje pelo Congresso. Análises independentes apontam que ainda há lacunas importantes em temas como clima e salvaguardas socioambientais, exigindo regulamentação e jurisprudência para dar segurança jurídica plena.
Empresas enfrentam ainda barreiras em processos de exportação, relacionadas a licenças de exclusividade em portos nacionais. Diante desse cenário, a parceria com organizações estabelecidas no setor surge como alternativa para o acesso a mercados emergentes.
Toscano relata que “a Itaminas era a maior das empresas brasileiras de mineração que não atuavam no exterior em razão das restrições que existem”. Com acordo firmado com a Trafita, a mineradora migrou investimentos para atender o mercado externo.
Licença social: o novo imperativo estratégico
A dicotomia entre licença ambiental e licença social ganha importância crítica. Com novos precedentes judiciais surgindo para ocupar lacunas da legislação, projetos podem ser paralisados a qualquer momento por demandas ou disputas locais.
“A licença social passou a ser uma demanda moral tão relevante quanto a ambiental.”
Thiago Toscano, CEO da Itaminas
A insegurança jurídica persiste, principalmente com disputas envolvendo comunidades tradicionais e decisões sobre licenças estaduais ou federais. “O investidor internacional não sabe quando ou se o projeto vai performar”, alerta Toscano, reforçando a necessidade de previsibilidade regulatória forte.
O playbook da Itaminas
“Historicamente, mineradoras nunca precisaram se comunicar com o grande público, pois tratam da venda de commodities. Depois das tragédias nas últimas décadas, o setor foi estigmatizado, e agora qualquer projeto precisa mostrar claramente seu impacto positivo no entorno”, orienta Toscano.
Frente a esse cenário, o CEO da Itaminas defende uma nova lógica de alinhamento estratégico. “Não quero apenas captar dinheiro. Quero ser visto como parceiro de desenvolvimento nacional. Preferimos discutir primeiro a tese de relevância estratégica. Só depois funding.”
Na Itaminas, são realizadas medições de felicidade interna bruta nos municípios impactados, com o objetivo de entender como a população percebe a presença da organização. A articulação contínua com lideranças locais e iniciativas como o projeto “Fachada Viva” buscam tornar a população participante nos rumos do negócio.
“O objetivo não é assistencialismo, mas melhoria real da vida das pessoas. Todos os nossos canais sociais são diretos, e a comunidade reconhece cada ação positiva”, reforça Toscano.
“A mineração de terras raras integra uma cadeia de valor que garante soberania, diversificação econômica e segurança nacional aos parceiros — é preciso analisar cada elo e entender que o impacto vai além do VPL (Valor Presente Líquido).”
Thiago Toscano, CEO da Itaminas
Relacionamento com stakeholders estratégicos
Para empresas e investidores que buscam posicionar-se neste mercado, o engajamento com atores-chave deve abranger múltiplas dimensões.
Governo Federal:O Ministério de Minas e Energia lidera as negociações estratégicas. Apesar da chamada de R$ 5 bilhões do BNDES e Finep para transformação de minerais estratégicos, a demanda do setor privado soma R$ 85 bilhões, evidenciando o fosso entre recursos e necessidades reais.
Agências Reguladoras: A Agência Nacional de Mineração enfrenta déficit de pessoal e infraestrutura, gerando atrasos na análise de processos. Fortalecer o relacionamento institucional e antecipar gargalos regulatórios é essencial.
Investidores Institucionais: Construir relacionamento efetivo exige uma agenda ativa, presença em fóruns e abordagem segmentada por perfil de capital, garantindo segurança e alinhamento estratégico.
Parceiros Tecnológicos: A ausência de knowhow doméstico em separação química e metalurgia de terras raras exige parcerias com empresas ou institutos de pesquisa estrangeiros. Sem transferência tecnológica, o Brasil permanecerá exportador de óxidos brutos — capturando apenas 15-20% do valor da cadeia.
Momento é decisivo
O cenário é promissor: a geologia favorável, energia majoritariamente renovável e o custo competitivo de produção posicionam o Brasil como candidato natural a ser um dos hubs não chineses de terras raras. Como destaca um executivo da australiana Liberty Metals, “o Brasil se alinha cada vez mais à estratégia de minerais críticos dos EUA para cadeias transparentes e seguras”.
O desafio continua sendo industrial (refino, separação, ímãs) e institucional (licenciamento, segurança jurídica, governança ambiental e social). Apesar dos riscos elevados, as margens operacionais vantajosas atraem investidores.
O sucesso, contudo, depende de equilibrar urgência econômica com rigor ambiental, agregar valor via processamento doméstico e construir infraestrutura regulatória previsível. Os riscos — regulatórios, operacionais e geopolíticos — exigem due diligence rigorosa e horizonte de médio a longo prazo.
A janela de oportunidade está aberta – o momento de agir é agora.

Como será o futuro do setor de energia pós-COP30?
A COP30 colocou uma forte ênfase no financiamento climático, destacando que são necessários US$ 1,3 trilhão para acelerar a ação global e apoiar uma transformação sustentável no Sul Global. A segurança energética também ganhou protagonismo, já que um novo relatório da Agência Internacional de Energia evidencia o aumento da demanda global por energia, exigindo mais renováveis, mas também sinalizando uma necessidade contínua de combustíveis fósseis.
Mas há uma boa notícia: 110 NDCs atualizadas foram submetidas, refletindo uma ambição global crescente e compromissos mais robustos com uma ação climática efetiva — embora seja necessário um acompanhamento rigoroso para garantir a implementação eficaz.
Confira a análise de Máximo Miccinilli, VP global de Energia, Clima e Mobilidade da FleishmanHillard.
The Dealmaker: Lessons from a Life in Private Equity
Guy Hands (edição em inglês)
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