Energia virou critério decisivo para investimentos em IA, segundo Chris Torto, da Ascenty

chris torto ascenty

Com a expansão dos data centers e novos incentivos fiscais no Brasil, a disponibilidade de energia e os prazos de conexão ganham peso na decisão de onde investir.

Em entrevista exclusiva ao The Incoming Brief, Chris Torto, fundador e CEO da Ascenty, explica como a companhia está estruturando sua expansão, o papel da autoprodução renovável e os obstáculos que ainda limitam a competitividade brasileira na corrida global por infraestrutura de inteligência artificial.

[Leia a entrevista completa →]

  1. A Ascenty fechou com a Casa dos Ventos o maior contrato de autoprodução renovável para data centers da região. Por que autoprodução, e não contratação no mercado livre? O que esse desenho diz sobre a confiança do setor na rede?

Um data center é um investimento de longo prazo, e a estratégia de energia precisa acompanhar esse horizonte. A autoprodução nos permite combinar previsibilidade de suprimento, planejamento de custos e participação na expansão da geração renovável. No acordo com a Casa dos Ventos, temos participação em dois empreendimentos em desenvolvimento, com operação prevista para 2027, e contratação de 110 megawatts médios. Além disso, a autoprodução permite que nós produzamos a energia que usamos sem ter um impacto no custo para residências ou outras empresas. 

  1. Com o Redata sancionado, o regime desonera o equipamento, mas não toca no custo da energia nem no prazo de conexão. O que muda no cálculo de investimento e o que continua igual? O que continua pesando na decisão de alocação de capital?

O Redata melhora uma parte relevante da equação: o investimento inicial em equipamentos. A suspensão de tributos pode tornar projetos mais competitivos e eliminar um dos maiores custos do Brasil. Isso permite que o Brasil comece a ser um dos polos mais competitivos para IA considerando o custo da energia e que a energia no Brasil é renovável. Obviamente precisamos continuar investindo nas conexões da rede de energia para que a geração da energia chegue nos lugares mais desejados para os data centers. 

  1. Quanto tempo leva, hoje, entre decidir instalar um data center no Brasil e ter energia entregue no ponto? Onde está o maior atrito: licenciamento, conexão, disponibilidade de rede?

Não existe um único prazo que represente o Brasil. Uma expansão em um campus com infraestrutura elétrica disponível tem uma condição muito diferente de um empreendimento que exige nova subestação, linhas de conexão ou reforços na rede. Nesse segundo caso, o planejamento precisa considerar um horizonte de anos. Mas o maior atrito hoje não é licenciamento, mas capacidades maiores nas conexões das redes.

  1. Numa disputa global por capacidade de IA, o que o Brasil oferece que outros países não conseguem entregar hoje? E o que ainda nos tira da mesa?

O Brasil oferece uma combinação muito competitiva: potencial de expansão renovável, mercado doméstico relevante e uma posição estratégica para atender a América Latina. A disponibilidade de energia de baixo custo, renovável e com uma geração maior do que a demanda são fatores importantíssimos hoje. Além de uma conectividade internacional que é reconhecida na própria política de atração de data centers.

  1. A chegada de grandes data centers costuma gerar debates sobre consumo de energia, uso de recursos locais e impacto nas comunidades. Como foi a experiência da Ascenty? Como ela pode guiar empresas do setor a construir confiança pública em torno desses projetos e mostrar que a expansão da infraestrutura digital também gera valor para o território onde está inserida?

Primeiramente, desde o início, a Ascenty não usa água nos seus data centers e agora produzimos toda a energia que usamos para não ter um impacto nas comunidades ou uso de recursos naturais. Isso é muito diferente de outros países. Todos os novos projetos também usarão energia de autoprodução e sem uso de água. É nosso compromisso com o Brasil.

  1. A Ascenty tem buscado garantir energia nova para suas operações, sem pressionar o suprimento de outras classes de consumidores. Como essa escolha pesa na reputação da companhia, no relacionamento com comunidades e na decisão de investimento?

Toda a energia usada nos data centers da Ascenty sempre será via autoprodução. Essa é a forma mais clara que podemos garantir que não teríamos impacto em outras classes de consumidores.

  1. Para investidores e conselhos olhando para o Brasil como destino de infraestrutura digital: qual é a decisão que não pode mais ser adiada?

A decisão que não pode mais ser adiada é incorporar energia e conexão à estratégia de infraestrutura digital desde o início. Para investidores e conselhos, isso significa avaliar agora as localidades, os parceiros, a demanda dos clientes e os caminhos concretos para garantir potência e capacidade de expansão.


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