A disputa global por infraestrutura elétrica abre oportunidades para o Brasil, afirma Glauco Freitas, da Hitachi Energy
A Hitachi Energy está investindo US$ 280 milhões no Brasil até 2027 para ampliar sua capacidade produtiva em 120%, em um momento de crescente demanda mundial por infraestrutura elétrica.
Em entrevista para The Incoming Brief, Glauco Freitas, presidente da Hitachi Energy no Brasil e Head de South LATAM, analisa como a competição por equipamentos e engenharia pode afetar prazos e custos dos projetos, além das oportunidades para fornecedores brasileiros e dos fatores que determinarão a capacidade do país de atrair novos investimentos.
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- A Hitachi Energy destina US$ 280 milhões ao Brasil até 2027, terceiro maior investimento global da companhia, para elevar a capacidade produtiva em 120%. O que a empresa está enxergando na demanda brasileira que justifica esse porte de aposta?
Enxergamos um Brasil com uma combinação rara. Uma matriz elétrica entre as mais limpas do mundo, um mercado grande e uma indústria capaz de produzir equipamentos de ponta. A demanda por eletricidade está crescendo de forma exponencial, com a expansão da geração eólica e solar e com novas cargas, como data centers, eletrificação da indústria e mobilidade. O Plano Decenal de Energia prevê cerca de R$ 600 bilhões em investimentos na matriz elétrica até 2034, e a capacidade instalada deve passar de 237 GW para 320 GW.
A Hitachi Energy está no país há mais de 70 anos, com a maior base instalada de transformadores e equipamentos de alta tensão do Brasil e presença em cerca de metade dos parques solares e eólicos. Esse histórico nos dá confiança para investir. Estamos ampliando a nossa fábrica de transformadores de potência de Guarulhos e construindo uma planta em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, com uma capacidade produtiva 120% maior até o fim de 2027 e mais de 3 mil empregos diretos e indiretos.
- O senhor tem dito que o Brasil produz energia no Norte e Nordeste e não consegue transportá-la ao Sul e Sudeste. Esse é um problema de linha, de planejamento ou de modelo de leilão? O que teria de mudar primeiro?
O Brasil fez algo notável: construiu uma das maiores matrizes renováveis do mundo. Também somos referência global pela interligação de nossa rede, que conecta todo o país. O próximo passo natural é fazer a infraestrutura de rede acompanhar a demanda prevista para a era da eletricidade que estamos vivendo, em que o modo de vida da humanidade depende fundamentalmente da eletrificação, e isso é menos uma questão de apontar uma causa e mais de sincronia entre geração e transmissão, que têm tempos diferentes de planejamento, licenciamento e construção.
O que mais ajuda, na nossa visão, é tratar geração e transmissão como um sistema integrado, com cronogramas coordenados, e contar com um calendário previsível de leilões. Isso permite que a indústria planeje e invista com antecedência, como a Hitachi Energy está fazendo no Brasil. Há também tecnologia de ponta disponível para esse desafio: a transmissão em corrente contínua e alta tensão, que o Brasil conhece bem desde Itaipu, e o armazenamento em baterias, que dá estabilidade a uma rede cada vez mais renovável.
Quanto mais conseguirmos escoar essa energia limpa, mais ela se converte em competitividade e desenvolvimento para o país. Sem transmissão não há transição energética. É ela que transforma energia limpa gerada em energia limpa consumida.
- Do lado do equipamento, existe hoje capacidade global de fornecimento para o volume de rede que o mundo precisa construir? Transformadores de alta tensão têm fila de anos em vários mercados. Onde o Brasil está nessa fila?
O mundo entrou na era da eletricidade e a indústria está respondendo à altura. A demanda global por transformadores deve triplicar até 2050, e a Hitachi Energy está investindo US$ 9 bilhões entre 2024 e 2027 para ampliar fábricas, pesquisa e digitalização, com 15 mil novos profissionais. Como uma das líderes globais em transformadores, estamos ampliando nossa capacidade produtiva e tecnológica para apoiar a expansão dos sistemas elétricos em diferentes regiões do mundo. No Brasil, estamos fortalecendo nossa presença industrial por meio de investimentos estratégicos. Guarulhos é uma das cinco maiores fábricas de transformadores de potência da Hitachi Energy entre 120 fábricas em seis continentes e está em expansão. Pindamonhangaba soma uma nova unidade, reforçando a capacidade produtiva da companhia no país e sua atuação nos mercados brasileiro e internacional. Além disso, trabalhamos em parceria com os clientes desde o início do planejamento, buscando maior previsibilidade e alinhamento às necessidades de cada projeto. O desenvolvimento da infraestrutura elétrica exige visão de longo prazo e planejamento conjunto entre todos os elos da cadeia. Em um contexto de forte demanda global por transformadores, o Brasil concorre por capacidade produtiva com mercados de todo o mundo, o que torna ainda mais importante a previsibilidade dos investimentos. Atenta a essa realidade, a Hitachi Energy está expandindo sua operação no Brasil, com investimentos em Guarulhos e Pindamonhangaba, para fortalecer sua capacidade industrial e apoiar a evolução da rede elétrica que dará suporte ao crescimento, à transição energética e ao aumento da eletrificação no país e na região.
- À medida que redes, transformadores, armazenamento e tecnologias de transmissão passam a ser decisivos para a transição energética, como empresas fornecedoras de infraestrutura podem deixar de ser vistas apenas como “backstage técnico” e ocupar um papel mais estratégico na narrativa de desenvolvimento, competitividade e descarbonização?
Esse movimento já está acontecendo e cabe a nós acelerá-lo. A infraestrutura elétrica é a base de tudo o que a sociedade quer construir: a indústria que se instala, o data center que escolhe onde operar, o hospital, a escola, o transporte eletrificado. Falar do que ela viabiliza é mais relevante do que falar do equipamento em si. A Hitachi Energy atua em toda a jornada da energia, da geração ao consumo. Conectamos usinas à rede, transportamos energia em longas distâncias, automatizamos e protegemos subestações e cuidamos do ciclo de vida dos ativos. Essa visão sistêmica nos permite contribuir para o debate sobre desenvolvimento, competitividade e descarbonização com tecnologia, conhecimento técnico e experiência acumulada em diferentes mercados e aplicações. Também significa abrir as portas: receber jornalistas, clientes e a sociedade em nossas fábricas, mostrar as pessoas e a engenharia por trás de cada equipamento e investir nas comunidades onde atuamos. Quando a infraestrutura é vista e compreendida, fica claro que ela faz parte da solução.
- Com a Europa mobilizando investimentos bilionários em redes, o Brasil passa a competir globalmente por equipamentos, engenharia e mão de obra qualificada. Como essa disputa afeta prazos, custos e capacidade de execução dos projetos brasileiros?
Vemos o movimento da Europa e dos Estados Unidos como um sinal de que a agenda de redes ganhou prioridade global, e isso é positivo para o Brasil, que tem muito a contribuir. A Hitachi Energy participa dos dois lados: mantém parcerias de longo prazo com operadoras europeias como TenneT e Amprion, e vem ampliando investimentos em capacidade produtiva e infraestrutura de redes em escala global, com mais de US$ 1,5 bilhão destinados à expansão global da produção de transformadores, mais US$ 4,5 bilhões até 2027 em manufatura, engenharia, digital, P&D e parcerias, mais de US$ 155 milhões adicionais na América do Norte, além do investimento no Brasil. O que faz diferença para o país é seguir preparando a cadeia. Ao ampliar Guarulhos e construir Pindamonhangaba, estamos adicionando capacidade industrial e emprego qualificado no Brasil, com mais de 3 mil postos entre diretos e indiretos. Quanto mais capacidade local e planejamento antecipado, mais previsibilidade de prazos e custos para os projetos brasileiros. Há ainda uma oportunidade: com engenharia, indústria e energia limpa abundante, o Brasil pode atender o mercado interno e se firmar como exportador de equipamentos e serviços de alta tecnologia, inclusive para esses mercados.
- Data centers de IA, eletrificação industrial e recarga de veículos elétricos são três tipos de carga muito diferentes. Do ponto de vista de quem fornece a tecnologia, qual delas é a mais difícil de acomodar na rede brasileira como ela está hoje?
As três são oportunidades para o Brasil e cada uma pede um tipo de solução. Os data centers de inteligência artificial são os mais exigentes em termos de planejamento, porque combinam escala, velocidade e requisitos muito altos de qualidade e continuidade de energia. Eles passaram a demandar conexões em alta tensão e funcionam hoje como um novo grande consumidor industrial. É por isso que um planejamento conjunto entre o setor elétrico e os empreendedores desde o início faz toda a diferença. A eletrificação industrial avança de forma gradual e tende a ser planejada com mais antecedência. A recarga de veículos elétricos é mais distribuída e, em frotas comerciais e de ônibus, conta com soluções de carregamento rápido que preservam a estabilidade da rede. Para as três, a Hitachi Energy já tem tecnologia disponível, de transformadores compactos para data centers a sistemas de armazenamento em baterias e eletrônica de potência que estabilizam a rede. O Brasil tem tudo para atrair esses investimentos: energia limpa, mercado e indústria.
- Para empresas brasileiras que querem entrar na cadeia de fornecimento da modernização de redes, quais são as exigências reais de qualificação — técnica, de certificação e de escala?
Entrar na cadeia de uma empresa como a Hitachi Energy exige, antes de tudo, demonstrar confiabilidade. Um equipamento de alta tensão é projetado para operar por 30 anos ou mais, então o fornecedor precisa provar que entrega a mesma qualidade, lote após lote. Segurança, integridade e qualidade são, para nós, a licença para operar, e valem tanto para a nossa fábrica quanto para quem fornece a ela. Na parte técnica, o ponto de partida é produzir conforme as normas internacionais aplicáveis a cada componente e passar por ensaios e auditorias de qualificação, com rastreabilidade de materiais e controle de processo. Em certificação, esperamos sistemas de gestão reconhecidos e aderência ao nosso código de conduta. Sustentabilidade e segurança cibernética também fazem parte da conversa: somos certificados em cibersegurança, temos metas de neutralidade de carbono aprovadas pela iniciativa SBTi e operamos no Brasil com 100% de energia livre de combustíveis fósseis. Em escala, olhamos a capacidade de acompanhar um ciclo longo de crescimento: volume, regularidade de entrega e solidez financeira. O caminho mais eficiente é começar cedo, por categorias em que a produção local faz mais sentido, e crescer em etapas. Estamos ampliando a fabricação no Brasil e isso abre espaço para novos fornecedores. Nosso convite às empresas interessadas é iniciar a conversa cedo, ainda antes das grandes encomendas, para construirmos juntos esse caminho.
- Se tivesse de deixar uma mensagem para investidores estrangeiros olhando para infraestrutura elétrica no Brasil, qual é a decisão que não pode mais ser adiada?
Minha mensagem é de confiança no Brasil. O país reúne matriz limpa, mercado grande, indústria instalada e uma agenda de investimentos em infraestrutura elétrica que está em plena construção. A Hitachi Energy, com mais de 70 anos de presença, está investindo US$ 280 milhões porque acredita nesse potencial. O que ajudará a transformar esse potencial em realidade é seguir dando previsibilidade aos investimentos em transmissão, com planejamento e leilões coordenados com a expansão da geração e das novas cargas. Isso permite que quem investe em fábrica, engenharia e formação de pessoas, como nós, enxergue a demanda com clareza e acelere seus planos. Estamos no início dos próximos 25 anos, que vão definir como a infraestrutura elétrica atende a sociedade. O Brasil tem tudo para liderar esse movimento, e a Hitachi Energy quer construí-lo junto com o país.
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