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A disputa brasileira e europeia por redes elétricas
O próximo grande ativo energético do Brasil não será uma usina. Em meio à corrida global pela eletrificação, esse posto pode caber a uma linha de transmissão, uma subestação, um transformador ou um sistema de armazenamento.
Com a demanda impulsionada pela indústria, pelos veículos elétricos e pelos data centers, o avanço da descarbonização e da competitividade depende cada vez menos de apenas gerar energia e mais da capacidade de entregá-la onde e quando é necessária.
Três cargas, três desafios diferentes
Data centers, indústria eletrificada e veículos elétricos: cada uma dessas cargas desafia uma camada diferente da rede, com problemas distintos de engenharia, financiamento e regulação.
Os data centers e inteligência artificial comprimem enorme demanda em áreas geograficamente concentradas e exigem energia praticamente ininterrupta, qualidade elevada, conexão em alta tensão e grande capacidade de expansão. O fenômeno é global. Segundo a Agência Internacional de Energia, o consumo mundial de eletricidade desses ativos deve praticamente dobrar até 2030.
A indústria eletrificada, por sua vez, enfrenta uma equação de competitividade: preço final da eletricidade, encargos, confiabilidade e previsibilidade dos contratos de longo prazo.
Já a mobilidade elétrica pressiona principalmente as redes de distribuição. Em agosto, o Brasil somava 639.133 veículos plug-in acumulados desde 2022 e quase 30 mil pontos públicos e semipúblicos de recarga, segundo a ABVE e a Tupi Mobilidade. É uma carga muito mais pulverizada, distribuída por residências, condomínios, eletropostos, garagens corporativas e frotas. A expansão exige reforços locais e soluções inteligentes de carregamento.
A síntese é simples: IA pede potência e conexão confiável; indústria, custo e previsibilidade; mobilidade, capilaridade e inteligência na distribuição.
O paradoxo brasileiro
O Brasil fechou 2025 com 86,8% de renovabilidade na matriz elétrica, com eólica e solar respondendo por 26,4% da geração. Na indústria, a matriz energética chegou a 65,1% de renovabilidade. Mesmo assim, o sistema enfrenta dificuldades para absorver toda a oferta disponível.
Segundo a Volt Robotics, cerca de 20% do potencial de geração eólica e solar foi cortado em 2025, com perdas estimadas em R$ 6,5 bilhões. O problema vai além da falta de transmissão. Dados do ONS mostram que a maior parte dos cortes passou a ocorrer por razões energéticas: momentos em que a geração disponível supera a demanda que o sistema consegue acomodar. Para 2026 a 2029, as projeções indicam cortes concentrados durante o dia, podendo superar 50 GW em situações críticas.
Essa nuance importa. O Brasil não tem simplesmente energia sobrando. Tem excedentes em determinadas horas e regiões, enquanto novas cargas precisam de potência firme, conexão e previsibilidade em outros locais. Faltam infraestrutura em pontos específicos, armazenamento, consumo flexível e maior coordenação entre a expansão da geração e da demanda.
Data centers podem ajudar a absorver parte desses excedentes quando seu consumo é planejado para aproveitar horários de maior oferta renovável. Mas não resolvem sozinhos um desequilíbrio que também depende de localização e horário.
Há ainda o problema do preço. Em setembro de 2026, a ANEEL elevou para 9,4% a projeção de efeito tarifário médio do ano, acima dos índices de inflação projetados pela agência. Pesquisa da CNI aponta que 67% das indústrias percebem o impacto da alta da energia nos custos de produção e 83% consideram a eletricidade relevante para a competitividade.
Produzir energia renovável em escala não é o mesmo que entregar eletricidade competitiva para a economia real.
O peso do Redata no CAPEX
A Lei nº 15.504/2026 criou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), que suspende tributos federais sobre equipamentos destinados ao setor. O regime tem vigência de cinco anos, embora parte dos benefícios tributários tenha efeitos limitados a dezembro de 2026, em razão da reforma tributária.
Entre as contrapartidas estão a destinação de capacidade ao mercado brasileiro, investimentos em pesquisa e desenvolvimento, eficiência hídrica e uso de energia limpa ou renovável. A renúncia fiscal estimada é de R$ 5,2 bilhões em 2026.
O Redata reduz parte do investimento inicial em equipamentos, mas não elimina os desafios relacionados ao custo da energia e aos prazos de conexão. Em junho, o Ministério de Minas e Energia mencionava 38 GW em pedidos de acesso de grandes cargas à rede, enquanto o PDE 2036 projeta que o consumo elétrico dos data centers pode saltar de 3 TWh em 2026 para 30 TWh em 2036.
Projetos que dependem de novas subestações, linhas ou reforços podem exigir anos de planejamento. Por isso, energia e conexão precisam integrar a decisão de investimento desde a escolha da localização e dos parceiros.
A geografia do investimento
O Brasil concentra grande parte de sua geração eólica e solar no Nordeste, enquanto parcela relevante da demanda industrial, digital e urbana está em outros polos. A distância entre geração e consumo reforça a necessidade de coordenar localização dos projetos, transmissão e expansão da demanda.
O calendário de investimentos reflete essa pressão. O primeiro leilão de transmissão de 2026 contratou R$ 3,3 bilhões. O próximo, marcado para 30 de outubro, prevê R$ 8,9 bilhões em investimentos, 1.866 quilômetros de novas linhas e obras em sete estados.
No horizonte de dez anos, o PDE 2036 prevê 31,9 mil quilômetros adicionais de linhas de transmissão, ampliação da capacidade de transformação e incorporação de armazenamento em baterias e resposta da demanda.
Para investidores, fabricantes e fornecedores, essa previsibilidade é determinante: permite programar expansão de fábricas, contratação de profissionais, desenvolvimento de fornecedores e alocação de capital com antecedência.
Europa, o espelho invertido
A Europa enfrenta um desafio semelhante, mas parte de uma matriz diferente: a eletricidade representa cerca de 23% do consumo final de energia da União Europeia, proporção praticamente estagnada na última década.
Em outubro, o Banco Europeu de Investimento destacou que a Europa tem seis vezes mais capacidade eólica e solar aguardando conexão à rede do que instalou no último ano. A organização defende que a modernização das redes tornou-se, portanto, uma questão de competitividade e autonomia econômica.
Brasil e Europa disputam recursos físicos e industriais limitados: transformadores, cabos, engenharia especializada e capacidade fabril. Essa pressão global pode afetar custos, prazos e a execução de projetos, mas também abre oportunidades para fornecedores brasileiros.
O peso reputacional
A expansão da infraestrutura elétrica e digital também produz impactos concretos nos territórios. Novas linhas, fábricas, subestações e data centers demandam recursos, alteram paisagens, mobilizam comunidades e levantam questões sobre tarifas, água, uso do solo e distribuição dos benefícios.
Quanto mais rápida a expansão, maior a necessidade de construir legitimidade social desde o planejamento, e não apenas após o início das obras.
Tornar a infraestrutura mais visível para a sociedade, mostrando como ela viabiliza indústria, saúde, mobilidade e digitalização, pode ser o início do diálogo. Foi o caminho seguido em alguns locais da Europa, onde instituições regionais relacionam a modernização das redes à participação local e à aceitação social dos projetos.
Não basta comunicar megawatts, quilômetros de linhas e bilhões investidos. É preciso demonstrar quem se beneficia, quais impactos serão mitigados e que valor permanece no território.
O desafio, portanto, vai além da tecnologia e dos incentivos fiscais. O próximo grande ativo energético, seja no Brasil ou na Europa, não será erguido apenas com aço, cobre ou investimento, mas também com articulação entre empresas, governos e comunidades.

Energia virou critério decisivo para investimentos em IA
Com a expansão dos data centers e novos incentivos fiscais no Brasil, a disponibilidade de energia e os prazos de conexão ganham peso na decisão de onde investir.
Em entrevista exclusiva, Chris Torto explica como a Ascenty está estruturando sua expansão, o papel da autoprodução renovável e os obstáculos que ainda limitam a competitividade brasileira na corrida global por infraestrutura de inteligência artificial.
[Leia a entrevista completa →]
A disputa global por infraestrutura elétrica abre oportunidades para o Brasil
A Hitachi Energy está investindo US$ 280 milhões no Brasil até 2027 para ampliar sua capacidade produtiva em 120%, em um momento de crescente demanda mundial por infraestrutura elétrica.
Em conversa com The Incoming Brief, Glauco Freitas analisa como a competição por equipamentos e engenharia pode afetar prazos e custos dos projetos, além das oportunidades para fornecedores brasileiros e dos fatores que determinarão a capacidade do país de atrair novos investimentos.
[Leia a entrevista completa →]
O futuro energético da Europa passa pela América Latina
A União Europeia está consolidando sua transição de uma agenda simplesmente voltada à descarbonização para uma corrida estratégica por competitividade e segurança econômica. Para quem faz negócios ou acompanha o comércio a partir do Brasil e da América Latina, essa mudança de rota é extremamente relevante, trazendo tanto grandes disrupções de mercado quanto novas oportunidades comerciais.
O Plano de Ação para a Eletrificação da Comissão Europeia traça um caminho ambicioso para tornar a Europa o primeiro “continente movido a eletricidade” do mundo, com a meta de dobrar a participação da eletricidade na matriz energética total da União Europeia, chegando a 46% até 2040. Mas um plano ambicioso exige uma infraestrutura robusta. É nesse contexto que surge o Pacote Europeu de Redes, uma estratégia abrangente voltada a reforçar e modernizar as antigas redes elétricas do continente. O pacote tem como foco a construção de interconectores estratégicos entre países, a redução da burocracia e a aceleração das licenças para redes, evitando que a energia limpa fique represada por gargalos de infraestrutura.
Embora a visão de longo prazo esteja clara, a indústria europeia enfrenta hoje uma realidade dura. O continente segue preso a uma crise impulsionada por custos de energia estruturalmente mais altos em comparação com seus pares globais. Tarifas elevadas de rede, tributos do sistema e uma lenta desvinculação das contas de eletricidade em relação aos preços voláteis do gás fóssil fazem com que a eletricidade limpa ainda seja cara demais para incentivar uma transição rápida.
Essa disparidade de preços impacta fortemente as operações corporativas. Fabricantes domésticos da União Europeia estão perdendo participação no mercado internacional, o que tem levado a sucessivas paralisações e fechamentos de plantas em setores intensivos em energia, como aço e químicos. Ao mesmo tempo, multinacionais estrangeiras que operam no continente estão reduzindo planos de expansão ou transferindo linhas de produção dependentes de energia para regiões com tarifas mais favoráveis. Para enfrentar esse cenário, o novo Plano de Ação inclui um esforço legislativo para reduzir tarifas de rede e tributos sobre eletricidade para empresas.
À medida que a Europa se afasta da importação de combustíveis fósseis, seu debate sobre segurança econômica mudou de forma fundamental para a garantia de acesso às matérias-primas da eletrificação. Isso colocou o Brasil e a América Latina no centro da estratégia energética de Bruxelas.
As metas da União Europeia para veículos elétricos e redes elétricas modernizadas dependem inteiramente da garantia de fornecimento de lítio e cobre. Para contrapor a posição dominante da China nas cadeias de suprimentos regionais, a União Europeia vem mobilizando de forma assertiva sua iniciativa Global Gateway para estabelecer pactos energéticos mútuos, com destaque para a cooperação estratégica com a Organização Latino-Americana de Energia — OLADE, agora OLACDE —, assinada em maio do ano passado.
Além disso, o acordo União Europeia-Mercosul é outro instrumento relevante que as empresas devem analisar e explorar a partir de agora. A oportunidade exige foco em setores-chave, apoio público-privado e mecanismos de financiamento capazes de ampliar oportunidades de negócios para empresas brasileiras e europeias.
Max Miccinilli, Head of Energy, Climate and Mobility da FleishmanHillard Bruxelas
COP31
9 a 20 de novembro | Antália, Turquia
A COP do Mar trará negociações internacionais sobre financiamento climático, implementação da transição energética e políticas de descarbonização, com impactos sobre investimentos e estratégias corporativas.
Enlit Europe 2026
10 a 12 de novembro | Viena, Áustria
Um dos principais encontros europeus do setor elétrico reúne lideranças, investidores e fornecedores para discutir modernização de redes, armazenamento, financiamento e competitividade energética.




